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2.8.11
Não é a altura de afirmar nada
Não é a altura de afirmar nada. Tudo deve permanecer oculto na sua pura inanidade (e unanimidade) inabordável. Este respeito absoluto é a condição de uma possível germinação futura e a única mediação de um enigma que se confunde com a própria respiração do construtor.
Tudo será construído no silêncio, pela força do silêncio
Tudo será construído no silêncio, pela força do silêncio, mas o pilar mais forte da construção será uma palavra. Tão viva e densa como o silêncio e que, nascida do silêncio, ao silêncio conduzirá.
O movimento vertical da construção vem de muito longe
O movimento vertical da construção vem de muito longe, de um fundo sem fundo que a visão não capta mas que é a condição primeira da visibilidade. A noite desse fundo é a força que unifica e propaga preenchendo o vazio da pupila e abrindo-a ao mundo. Essa força é a força da imaginação e a possibilidade de ser o que ainda não se é. O construtor sente a angustiante iminência do por fazer e o vazio de uma suspensão em que o nada é a ruína absoluta de toda a esperança. Mas do fundo desse abismo negativo um movimento ascensional erige o incomparável à torre da sua construção. É então que ele encontra a forma do ser como se o longínquo se tornasse acessível na distância. E assim o ser a si mesmo se junta e todos os gestos construtivos serão como que os frémitos do ser unido ao alento lúcido e claro do construtor.
A construção da obra é também uma construção do corpo
A construção da obra é também uma construção do corpo. O construtor sai de si para entrar em si. A relação das forças com o mundo altera-se a partir do ponto cego em que a visão se gera até aos campos em que a luz se ordena na sua lisa e pura tranquilidade.
Construir é assim criar o espaço da união originária em que o tempo e o ser se reúnem como a vibração única de um arco entre o visível e o invisível. Mas se o construtor é o homem que trabalha sob o signo do uno, a sua matéria prima é a dispersão e o caos, o vazio e o obscuro, o informe e o opaco. Ele não recusa nem nega essa matéria, porque ela é a substância mais densa da sua construção e porque é nela que o ser aguarda a possibilidade de inaugurar uma forma nupcial que pertença tanto ao espaço da realidade exterior como à densidade obscura da sua essência íntima. O ser é assim a construção de si mesmo a partir de um ser que ainda não é e que tende permanentemente a ser. Como o construtor não se separa dessa matéria, toda a sua obra é uma incessante imersão na nebulosa interior, e ao mesmo tempo a transformação radical desse fundo obscuro que nunca perde completamente a sua obscuridade ao transformar-se no volume final das formas exteriores.
Construir é assim criar o espaço da união originária em que o tempo e o ser se reúnem como a vibração única de um arco entre o visível e o invisível. Mas se o construtor é o homem que trabalha sob o signo do uno, a sua matéria prima é a dispersão e o caos, o vazio e o obscuro, o informe e o opaco. Ele não recusa nem nega essa matéria, porque ela é a substância mais densa da sua construção e porque é nela que o ser aguarda a possibilidade de inaugurar uma forma nupcial que pertença tanto ao espaço da realidade exterior como à densidade obscura da sua essência íntima. O ser é assim a construção de si mesmo a partir de um ser que ainda não é e que tende permanentemente a ser. Como o construtor não se separa dessa matéria, toda a sua obra é uma incessante imersão na nebulosa interior, e ao mesmo tempo a transformação radical desse fundo obscuro que nunca perde completamente a sua obscuridade ao transformar-se no volume final das formas exteriores.
Ao fim de cada construção diária, ao crepúsculo
Ao fim de cada construção diária, ao crepúsculo, o construtor sobe a uma torre de pedra para meditar um pouco. A plenitude da tranquilidade é perfeita nos campos fulvos e ondulados em redor, cobertos de ervas altas, de flores e arbustos e marginados por um riacho sob a penumbra verde de um arqueado tecto de folhagem. Dir-se-ia que o olhar do construtor encontrou o ser em extensão, o ser que se oferece, no seu mutismo eloquente, e ao mesmo tempo se guarda no mesmo espaço do seu tranquilo esplendor. A meditação não é mais do que a contemplação de uma matéria que contém em si o excesso da sua energia calma e a densidade materna que envolve todas as interrogações e torna supérfluo e intruso o pensamento. Por isso o construtor se integra na paisagem e, reflectindo-a, não a elabora nem a altera. Toda a sua vida está intacta e plenamente segura na indistinção entre o seu íntimo e a túmida e fresca serenidade da paisagem que o envolve. A realidade exterior passou a ser a matéria mais íntima e mais pura da relação total e, inversamente, o contemplador converteu-se num elemento da paisagem que a partir dela própria a vê e nela se vê. Esta circularidade é a mais harmoniosa manifestação do uno e o alvo da construção será criar o espaço mais propício à sua tranquila fulguração. Não há segredo mais supremo nem mais simples do que esta relação vital entre o corpo e o espaço, entre o alento e a paisagem, entre o olhar e o ser.
Todo o gesto construtivo tem como objectivo essencial a integridade do ser
Todo o gesto construtivo tem como objectivo essencial a integridade do ser. A liberdade inteira da construção radica-se na una totalidade de um corpo que se perspectiva e configura a sua energia e a desenvolve em consonância com a sua integridade, que é, ao mesmo tempo, a origem e o alvo incessante da sua realização. Ser integro é sentir o peso inteiro da terra sobre as pálpebras e ter os olhos abertos sobre a amplitude azul do mar.
A construção é, assim, o movimento da unificação do corpo e do espaço, da luz e da sombra, da presença e da ausência. Um círculo se forma em torno do ser e os seus sucessivos anéis possuem a leveza e o fulgor de uma idade que é, simultaneamente, maturidade, adolescência, infância. Este instante é o instante da integridade pura em que o ser é envolvido pela sua construção aberta e transparente. A diferença radical inerente ao ser como fundamento primeiro integra-se na unidade construída da obra e nela reaparece como a pulsação do informulável que nunca pode ser apreendido ou delimitado. A integridade, com todas as suas raízes imperceptíveis e a sua imperceptível atmosfera, orienta o itinerário da construção que a consagra e a eleva ao plano da totalidade visível e ao seu esplendor inicial. A construção torna-se, então, a esfera do Uno e a habitação viva em que o construtor e a natureza se unem na unidade viva da origem.
A construção é, assim, o movimento da unificação do corpo e do espaço, da luz e da sombra, da presença e da ausência. Um círculo se forma em torno do ser e os seus sucessivos anéis possuem a leveza e o fulgor de uma idade que é, simultaneamente, maturidade, adolescência, infância. Este instante é o instante da integridade pura em que o ser é envolvido pela sua construção aberta e transparente. A diferença radical inerente ao ser como fundamento primeiro integra-se na unidade construída da obra e nela reaparece como a pulsação do informulável que nunca pode ser apreendido ou delimitado. A integridade, com todas as suas raízes imperceptíveis e a sua imperceptível atmosfera, orienta o itinerário da construção que a consagra e a eleva ao plano da totalidade visível e ao seu esplendor inicial. A construção torna-se, então, a esfera do Uno e a habitação viva em que o construtor e a natureza se unem na unidade viva da origem.
O construtor é um homem vazio, como todos os homens
O construtor é um homem vazio, como todos os homens, mas a maioria destes não o sabe. Esse vazio irredutível através de todas as situações da existência subjaz à paixão e ao desejo, ao prazer e à alegria, à comunicação e à festa. O conhecimento desse vazio é a percepção da realidade fundamental, aparentemente adversa mas constitutiva da subjectividade humana. A sabedoria do construtor reside em não tentar preencher esse vazio, em deixá-lo ser na sua neutralidade e na sua ignorância fértil. No seu silêncio povoado pelo pólen da construção futura, a divindade é o corpo vivo de uma chama ténue, de uma pureza inicial. A construção principia aí, ainda antes que o construtor coloque uma pedra sobre outra. A abolição das imagens mentais, realizada espontaneamente, permite essa espécie de plenitude do vazio que é a condição primeira da construção da obra. O construtor sabe que o ar que respira, então, é o do próprio deus que ele irá construir. A primeira impulsão construtiva nasce da ondulação infinitamente tranquila desse vazio inicial. Mas, antes que o primeiro gesto construtivo se eleve, a concha do sono fecha-se sobre esse vazio de uma pura e total integridade. É preciso então combater o sono e, ao mesmo tempo, reintegrá-lo na construção da obra, para que a matéria inanimada se confunda com a matéria viva do corpo e da palavra. O reino vegetal é, igualmente, importante, para a transmutação originária que a construção opera. Assim, a construção é a actividade unificadora do sono e da vigília, do silêncio e da palavra, da vida animal e vegetal e da matéria inanimada. A verdade da construção é a liberdade plena em que todas as barreiras são abolidas e a realidade do ser aparece despojada de todas as crenças e descrenças, de todos os discursos, de todo o conhecimento redutor.
Mesmo na actividade construtiva, o deixar ser é o princípio da liberdade criadora que se orienta para a nudez do espaço inicial e para a integridade do ser inseparável do vazio. Assim, ao longo da construção, a liberdade exerce-se como um não esforço e como uma percepção aberta sem conflitos, entregue à ondulação unânime do Uno.
Mesmo na actividade construtiva, o deixar ser é o princípio da liberdade criadora que se orienta para a nudez do espaço inicial e para a integridade do ser inseparável do vazio. Assim, ao longo da construção, a liberdade exerce-se como um não esforço e como uma percepção aberta sem conflitos, entregue à ondulação unânime do Uno.
A finalidade da construção não é a obra acabada
A finalidade da construção não é a obra acabada para ser habitada finalmente na tranquilidade de um repouso merecido.
O gesto construtivo é um fim em si mesmo, porque é um modo de abrir e habitar o espaço da construção. A obra nunca será uma propriedade mas sim a actividade incessante de um operário que se constroi a si mesmo em cada gesto construtivo.
A matéria obscura e a matéria diurna reúnem-se num gesto inovador que se repercute no construtor amante. A realidade aparece agora à luz desse gesto amoroso e ingénuo
que é como um feixe de centelhas que se curva, se eleva e se abate sobre a pedra e a modela tornando-a um astro do instante criativo. Graças a esta acção construtiva, a opacidade da existência é integrada pelo processo construtivo. O núcleo deste é sempre um ponto negro e as suas margens confinam com o silêncio do impronunciável. O gesto construtivo não suprime ou elide o negativo, mas o seu ímpeto inadiável e a sua verticalidade erigem-se sobre o fundo negro da existência e criam o horizonte das possibilidades iniciais da construção humana.
O gesto construtivo é um fim em si mesmo, porque é um modo de abrir e habitar o espaço da construção. A obra nunca será uma propriedade mas sim a actividade incessante de um operário que se constroi a si mesmo em cada gesto construtivo.
A matéria obscura e a matéria diurna reúnem-se num gesto inovador que se repercute no construtor amante. A realidade aparece agora à luz desse gesto amoroso e ingénuo
que é como um feixe de centelhas que se curva, se eleva e se abate sobre a pedra e a modela tornando-a um astro do instante criativo. Graças a esta acção construtiva, a opacidade da existência é integrada pelo processo construtivo. O núcleo deste é sempre um ponto negro e as suas margens confinam com o silêncio do impronunciável. O gesto construtivo não suprime ou elide o negativo, mas o seu ímpeto inadiável e a sua verticalidade erigem-se sobre o fundo negro da existência e criam o horizonte das possibilidades iniciais da construção humana.
O construtor aspira a uma comunidade fraterna e solidária
O construtor aspira a uma comunidade fraterna e solidária. Por isso, vive longe da sociedade, convivendo apenas com alguns amigos e, quer solitário, quer em companhia, a sua construção é a constante renovação da sua vida. Se a existência é uma incessante mudança, o móvel equilibrio de ser implica uma abertura aos outros sem preconceitos nem fantasias deformadoras. O deus do real não está no interior do sujeito, no círculo fechado da confusa intimidade mas no rosto dos outros e é através desses rostos que se perspectiva a construção humana de uma comunidade viva e essencialmente aberta. Nas pulsações da convivência, o ser emerge dos seus obscuros labirintos e encontra o pólo do outro que o clarifica e assegura a sua móvel e aberta identidade. A verdadeira origem solar reside neste encontro com o outro que, deste modo, ilumina o sujeito e o erige em face da alteridade essencial. O deus da origem e do recomeço da vida revela, assim, a sua integridade viva como ser da transformação e da mudança fértil do real. O outro é uma condição inicial da construção e está sempre implícito nela mesmo quando irrompe do círculo solitário do ser.
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