Um poema é sempre escrito numa língua estrangeira
com os contornos duros das consoantes
com a clara música das vogais
Por isso devemos lê-lo ao nível dos seus sons
e apreendê-lo para além do seu sentido
como se ele fosse um fluente felino verde ou com a cor do fogo
O que de vislumbre em vislumbre iremos compreendendo
será a ágil indolência de sucessivas aberturas
em que veremos as labaredas de um outro sentido
tão selvagem e tão preciosamente puro que anulará o sentido das palavras
É assim que lemos não as palavras já formadas
mas o seu nascimento vibrante que nas sílabas circula
ao nível físico do seu fluir oceânico
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3.8.11
Talvez a escrita seja uma expansão do universo
Talvez a escrita seja uma expansão do universo
e o que parece fantasia ou arbitrários lances
seja a lucidez da energia cósmica
As palavras concentram-se e propagam-se como uma concha ou uma onda
e a arte está no equilibrio do seu movimento
para dentro e do seu movimento para fora
Das suas narinas jorram duas correntes contrárias
uma branca outra vermelha que se enlaçam
formando um rio azul do dia habitável
A sua respiração é a indolência verde
da sua fantasia da matéria viva
e essa fantasia é a transparência mesma
da palavra nua aberta à melodia
do universo em elementar efusão
Entre os flancos do mundo o poema é um cavalo ébrio
com um único olho de cristal por onde o sol se engolfa
e cuja luz se repercute em delicadas linhas
da energia unânime do seu peito inacabado
e o que parece fantasia ou arbitrários lances
seja a lucidez da energia cósmica
As palavras concentram-se e propagam-se como uma concha ou uma onda
e a arte está no equilibrio do seu movimento
para dentro e do seu movimento para fora
Das suas narinas jorram duas correntes contrárias
uma branca outra vermelha que se enlaçam
formando um rio azul do dia habitável
A sua respiração é a indolência verde
da sua fantasia da matéria viva
e essa fantasia é a transparência mesma
da palavra nua aberta à melodia
do universo em elementar efusão
Entre os flancos do mundo o poema é um cavalo ébrio
com um único olho de cristal por onde o sol se engolfa
e cuja luz se repercute em delicadas linhas
da energia unânime do seu peito inacabado
Estou a ver aquele homem que está
Estou a ver aquele homem que está
Todos os seus músculos estão
no estar
A sua visão é a coincidência do ócio
e a sua respiração faz mover as nuvens
Um cavalo espreita na folhagem
e o silêncio não se altera mas torna-se visível
É um momento privilegiado um momento natural
Nenhuma fantasia nenhuma inquietação
Eu sou o que estou a ver o homem que está
e sou no seu estar
Não poderia querer mais do que esta visão
porque sei que é tudo o que posso receber
e tudo o que sou neste momento
Todos os seus músculos estão
no estar
A sua visão é a coincidência do ócio
e a sua respiração faz mover as nuvens
Um cavalo espreita na folhagem
e o silêncio não se altera mas torna-se visível
É um momento privilegiado um momento natural
Nenhuma fantasia nenhuma inquietação
Eu sou o que estou a ver o homem que está
e sou no seu estar
Não poderia querer mais do que esta visão
porque sei que é tudo o que posso receber
e tudo o que sou neste momento
Estou vivo mas quero viver
Estou vivo
mas quero viver
Não quero salvar-me porque não posso salvar-me
porque a salvação não existe
Perdi o meu percurso
e tudo o que herdei de mim próprio
No mundo as palavras não compensam
a violência absurda do sofrimento
Na página elas podem ser a invenção
de um frémito perante um corpo nu
É na palavra que se acende a minha vida
mas a minha vida sobra sempre como uma cauda cinzenta
Por que é o infortúnio a norma
e não há resgate para a morte?
O mundo é estranho mas irrefutável
na sua contínua sucessão que nos transcende
e passa sobre nós como se não existíssemos
Teremos acaso que nos unir e reinventar as nossas vidas
para que os deuses nasçam do nosso desamparo?
O silêncio conduz-nos à sua infinita fronteira
mas o ócio iluminado pode vogar na casa
como se estivéssemos entre palmeiras e araucárias
Toda a viagem é um regresso ao ponto de partida
para partir de novo entre a água e o vento
mas quero viver
Não quero salvar-me porque não posso salvar-me
porque a salvação não existe
Perdi o meu percurso
e tudo o que herdei de mim próprio
No mundo as palavras não compensam
a violência absurda do sofrimento
Na página elas podem ser a invenção
de um frémito perante um corpo nu
É na palavra que se acende a minha vida
mas a minha vida sobra sempre como uma cauda cinzenta
Por que é o infortúnio a norma
e não há resgate para a morte?
O mundo é estranho mas irrefutável
na sua contínua sucessão que nos transcende
e passa sobre nós como se não existíssemos
Teremos acaso que nos unir e reinventar as nossas vidas
para que os deuses nasçam do nosso desamparo?
O silêncio conduz-nos à sua infinita fronteira
mas o ócio iluminado pode vogar na casa
como se estivéssemos entre palmeiras e araucárias
Toda a viagem é um regresso ao ponto de partida
para partir de novo entre a água e o vento
Entre mim e ele há uma relação mimética
Entre mim e ele há uma relação mimética
Se me movo ele move-se
se estou quieto ele mantém-se imóvel
Não sei se sou eu que me duplico
se é um outro de mim que emerge
Às vezes julgo que estou diante de um espelho
e não me reconheço
e todavia ele retrata a aparência da minha identidade
Mas é nos raros momentos em que tudo está assente
como se o mundo fosse definitivo
que encontro o alento para me manter calmo
e nada esperar já que tudo é a germinação do ócio
quando a luz promete o que nunca dá
e apesar disso o instante é a culminação voluptuosa
de ser tudo o que pode ser à beira do impossível
Se me movo ele move-se
se estou quieto ele mantém-se imóvel
Não sei se sou eu que me duplico
se é um outro de mim que emerge
Às vezes julgo que estou diante de um espelho
e não me reconheço
e todavia ele retrata a aparência da minha identidade
Mas é nos raros momentos em que tudo está assente
como se o mundo fosse definitivo
que encontro o alento para me manter calmo
e nada esperar já que tudo é a germinação do ócio
quando a luz promete o que nunca dá
e apesar disso o instante é a culminação voluptuosa
de ser tudo o que pode ser à beira do impossível
Alguns dizem que eu escrevo de mais
Alguns dizem que eu escrevo de mais
como se tivesse escrito alguma coisa
Não, todas as minhas inscrições foram acenos
a algo que nunca atingi
e que era a única coisa que eu desejava dizer
Sei hoje que talvez não fosse nada
mas seria a descompressão a nulidade liberta
que restabeleceria a circulação solar
nas palavras e nos músculos na visão da terra
Seria a maravilha a surpreendente simplicidade
Quis envolver-me na sombra e subir com a sombra
e a sombra era o fogo não o lume tranquilo
da lucidez e do verde das árvores
Apenas entrevi o ouro da água
e não me banhei nela não a sulquei com um barco de folhas
Dispersei-me na areia sem me apagar
e fui sempre uma sombra obstinada
como se tivesse escrito alguma coisa
Não, todas as minhas inscrições foram acenos
a algo que nunca atingi
e que era a única coisa que eu desejava dizer
Sei hoje que talvez não fosse nada
mas seria a descompressão a nulidade liberta
que restabeleceria a circulação solar
nas palavras e nos músculos na visão da terra
Seria a maravilha a surpreendente simplicidade
Quis envolver-me na sombra e subir com a sombra
e a sombra era o fogo não o lume tranquilo
da lucidez e do verde das árvores
Apenas entrevi o ouro da água
e não me banhei nela não a sulquei com um barco de folhas
Dispersei-me na areia sem me apagar
e fui sempre uma sombra obstinada
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