2.8.11

Ter a consciência do mistério é ter a consciência de um nada

Ter a consciência do mistério é ter a consciência de um nada
É como saber que Deus não lê os poemas que escrevo
ou como saber que os lê o que seria um mistério maior
A matéria do poema é a matéria da projecção de um para ser
que se desprende e da sua própria espessura
para dar forma a um frémito que não tem matéria alguma
Estas linhas são veias da livre fantasia
livre mas dirigida para o mesmo círculo branco
onde nunca poderiam formar o porte de um cavalo
ou se pudessem desviar-se-iam do seu alvo essencial
Se no intervalo das palavras se pode ouvir o silêncio dos campos
como se o poema fosse um harmónio côncavo
é a inversão do mundo num silêncio e não o mundo
e a atenção sem objecto entre o interior e o exterios do poema
Esta é a matéria do poema um nada que advém e faz advir
envolvendo o fogo no vagaroso veludo das palavras

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fotografia e selecção de poemas de João Silva