3.9.10

Quero ser outro e é outro que eu me vejo

Quero ser outro e é outro que eu me vejo
sentindo que sou eu sem saber quem sou eu
Escrever é sempre outra versão
de um texto que nunca se chegou a compor
Mas é igualmente a diversão
que nos faz vacilar entre o eu e um outro
sem necessitar de ser um ou outro

Há sempre quem procure saber quem é o autor de um texto
como para lhe pedir contas ou referências exactas
mas quem escreve desvia a trajectória paralela
para o ser que já sendo um outro
nunca o é o seu movimento para ele

Ninguém pode decidir Ele é um outro
porque ele é o processo de uma transformação
em que é uma invenção o reconhecimento
e que só é não sendo ou sendo um outro

2 comentários:

Abraço-te disse...

Eu sou o outro que te escreve estas linhas, não sou aquele que te escreveu sobre o que li...
Por isso decidi vir aqui, ler e ver o meu outro a escrever, sobre o que tu fazes aqui!!! MUITO BOM
Voltarei...

Abraço-te

Analuka disse...

Magnífico poema! Que bom encontrar este espaço com poemas encantadores e tocantes do António Ramos Rosa. Deixo abraços alados!

fotografia e selecção de poemas de João Silva