2.8.11

Ter a consciência do mistério é ter a consciência de um nada

Ter a consciência do mistério é ter a consciência de um nada
É como saber que Deus não lê os poemas que escrevo
ou como saber que os lê o que seria um mistério maior
A matéria do poema é a matéria da projecção de um para ser
que se desprende e da sua própria espessura
para dar forma a um frémito que não tem matéria alguma
Estas linhas são veias da livre fantasia
livre mas dirigida para o mesmo círculo branco
onde nunca poderiam formar o porte de um cavalo
ou se pudessem desviar-se-iam do seu alvo essencial
Se no intervalo das palavras se pode ouvir o silêncio dos campos
como se o poema fosse um harmónio côncavo
é a inversão do mundo num silêncio e não o mundo
e a atenção sem objecto entre o interior e o exterios do poema
Esta é a matéria do poema um nada que advém e faz advir
envolvendo o fogo no vagaroso veludo das palavras

Se eu sou nada esse nada deseja

Se eu sou nada esse nada deseja
ser e só no amor encontra a consistência
que envolve o nada que o acolhe e o liberta
para ser oferenda a ti deus ignorado
O que eu sou é pouco para ti e é demais
e só o zero em mim é o teu círculo
e só no seu silêncio está o teu nome
Nada sabendo de ti sei que és o Simples
e se de ti não ouço o mais leve múrmurio
é porque tu habitas o silêncio de todos os silêncios
e é por esse silêncio que morro e ressuscito

Deus vê talvez com as pálpebras descidas

Deus vê talvez com as pálpebras descidas
e assim vê o nosso espírito como um halo ténue
ou uma sombra que estremece mas contínuamente se levanta
É ele que sustenta a nossa integridade vertical
com a sua imóvel respiração incessante

Que dificil é ser o alvo desta atenção divina
como se fôssemos apenas o aro vazio de um puro abandono
Mas é nesta entrega passiva que nós somos
mais do que órfãos de uma útero materno
e nos erguemos à transparente pedra
da nossa renovada identidade

Só nesse cimo branco renascemos livres
porque nos entregamos à silenciosa respiração
do ser divino que atravessa o nosso sono
e faz resplandecer a nossa incerta ignorância

Talvez ninguém procure o fundo de si mesmo

Talvez ninguém procure o fundo de si mesmo
ou porque não existe ou porque é inacessivel
A palavra não revela apenas anuncia ou apenas pressente
um espaço sem caminho uma asa comprimida no mármore

Talvez nunca possamos colher mais do que uma simples erva
junto a um muro para preencher o vazio do dia
Assim poderemos esquecer que tudo é surdo
e ocupar um espaço que não pertence ao mundo

O mundo ignora-nos como se os seus caminhos não fossem para nós
mas o poema acaricia o rigor do solo
e alheia-se de tudo que não seja a carne íntima
do seu movimento entre raízes e antenas

As coisas só na aparência têm limites

As coisas só na aparência têm limites
e cada uma é uma rede inextricável
e silenciosamente vertiginosa

mas nós temos necessidade de limites
e procuramos pela palavra e pelos gestos
rodeá-las de vagarosos contornos
para que se harmonizem com as nossas coordenadas

Todas as coisas estão presas embora se movam
obstinadamente no seu interior
e desejem encontrar uma saída
como se quisessem ser repatriadas
ou encontrar o seu próprio horizonte

Todas as coisas têm um espaço mas quais os laços

Todas as coisas têm um espaço mas quais os laços
que as sustêm? Quando morremos
faltará entre elas algum nexo cintilará nelas alguma sombra
ou tornar-se-ão póstumas e arcaicas irrevogavelmente derradeiras?

Nós vemos as coisas e não sabemos o que são
porque mesmo ignorando-as nos são familiares
Vivemos no seu espaço que é mais nosso do que delas
mas não terão também elas o anseio de saírem do seu circulo tenso?

Escrevemos para criar um suporte na distancia
e não no espaço das coisas Quando detemos o olhar
num objecto às vezes dir-se-ia que nos pertence
e que nos oferece um momentâneo ponto de apoio

Mas escrever será mais do que estremecer num incessante apelo
para que as palavras movam a nossa ansiedade
e desloquem um pouco para o corpo dos nossos gestos
e sintamos o fremente simulacro da terra?

Escrevo para unir mas em cada sílaba separo

Escrevo para unir mas em cada sílaba separo
No fundo das palavras há talvez uma passagem
um rio subterrâneo Coloco uma palavra
sobre a página e tudo de súbito se move
mas não neste quarto onde tudo permanece imóvel

Que ignoradas luas presente cada verso
ou que violentas panteras o fazem estremecer!
Por vezes a palavra deslumbra-se
com uma mulher prodigiosamente nua
e por isso ela se entrega ao silêncio
não para desistir mas para respirar

Ningém pode suportar a maravilha
e se quer dizê-la é preciso fugir-lhe
para não ficar demasiado preso a ela
e poder amá-la na medida da distância

A terra era pesada como uma porta espessa

A terra era pesada como uma porta espessa
uma sílaba sem vogal
uma pedra sem a melodia das nascentes
Mas quando a água surgiu como uma anémona voluptuosa
a nudez reconheceu a seda de uma página ligeira
onde de curva em curva se anunciava a mulher
como se fosse uma ânfora azul ou uma janela viva
Sumptuosamente simples sumptuosamente plácida
profunda e lisa desperta no seu sono
a água espraiou-se entre o olvido e a ternura
e formou a consciência côncava e aberta num barco
O homem procurou sempre a lentidão materna
do seu ventre absoluto e dos seus ombros azuis
É na água que ele encontra as equivalências volúveis
e o ritmo da indecifrável leveza do seu sopro
De dália em dália a água embala a ferida
num adeus de melancólica e vaga melodia
O mundo retorna à sua matriz de frescura imensa
e a luz penteia a água como se fosse uma gazela

1.8.11

Uma linha apenas uma sinuosa linha

Uma linha apenas uma sinuosa linha
e eu veria o seio da pátria matrona adolescente
levantando o seu archote vermelho
ou o candelabro do seu antigo esplendor
Ela seria a soberana encarnação do meu desejo
e todos os seus talismãs afluiriam ao delta
da idealidade universal

Ouço o clamor das suas veias
que requerem a consciência como um astro de universo
as constelações dos homens que se levantam e propagam
as suas luzes de audácia e vigilância

Recordo os anos em que uma pata férrea
em vão quis tornar incomunicável o seu tumultuoso tronco
de primavera e ela comunicava através dos muros
cantando no suplício com lúcida paixão
e entre dois extremos foi a vibrante insurreição
florindo nas espingardas e nos rostos libertos
O que será ela hoje ou amanhã se a Europa trai
o seu ideal de paz e unidade
montada sobre o touro que tem o fogo nas ventas
e incendeia as torres da construção humana?

O perfil imortal desta pátria foi traçado
pela dilatação do seu pequeno reino
que como uma onda alastrou por esta estreita faixa
que veio a ter o nome de Portugal
mas a sua vocação de audácia aventureira
impulsionou-a para o mar para ilhas longínquas
para continentes ignorados e o seu volume cresceu
espalhado pelo mundo inteiro

Eu amo esta pátria que se projecta no futuro
porque ela não pode conter em si o ímpeto do seu génio
nem a maré em que lateja um novo mundo

Pátria é uma palavra que podemos dizer

Pátria é uma palavra que podemos dizer
sem que a maioria do povo a reconheça
Ela não pertence ao léxico das palavras comuns
e se os políticos a referem é quase sempre com a violência
de uma retorica vã
Mas seja qual for a forma e substância dos seus símbolos
bronze ou pedra bandeira chama música ou palavra
nós sabemos que ela está viva e vitoriosa
sobre todos os obstáculos e desastres
grávida de um futuro de comum liberdade

Se a pátria é uma herança ela é também o espaço que está à nossa frente
em que temos de projectar as suas dinâmicas linhas
em que vibrará o ritmo do nosso sangue e da nossa respiração
porque ela será a realidade do que em nós é a irrealidade do nosso ideal

Chamo pátria de profundas veias

Chamo pátria de profundas veias
a essa relação viva entre os homens se ela houvesse
e não esta condição de anónima indiferença
e de vaga identidade flutuante
sem cúpula e sem os templos brancos
com jardins de um ócio voluptuoso
É por isso que estamos condenados
à solidão de não pertencermos à dilatada força
que constitui um universo e projecta um horizonte
de humanidade viva em floração unânime
Somos apenas cúmplices da nossa inabilidade
e dos ornamentos com que a revestimos
para parecer que somos e ser o que parecemos
Quem escreve procura abrir um espaço numa muralha
tão opaca mas tão vaga e cinzenta
que esse espaço imaginado de branca identidade
não é mais que um aceno à possivel liberdade
para além da sua gloria profanada

31.7.11

O instante do silêncio

Se puderes aceitar a nudez
como uma graça ou uma pobreza
talvez encontres
as linhas de força inexplicadas.
Se com o teu peso irremediável,
proferires a palavra que mal pousa
poderás sustentar a magnética felicidade
desse instante,
ameaçado mas vivo,
do indecifrável silêncio da nudez.

A matéria do desejo

Há palavras com que procuramos navegar:
distância, sombra, lâmpada, vazio.
E às vezes abrem-se repentinos corredores,
no silêncio de uma nuvem veneranda.
E se toda a ciência é esquecimento
que por dentro torna tudo grande
e por fora rasga varandas brancas
para um horizonte que nunca foi pensado,
é porque em nós subsistem estrelas de água
que sob os arcos da noite demoraram.
E então o olhar regressa à fonte
com a força grave e limpa de estar vendo
a matéria mesma do desejo
numa colina que se espraia sob a brisa
e não é ainda um nome e já o inicia.

No jardim

Flutuávamos errantes e vazios
nas leves lufadas da folhagem
e entre espelhos opacos e redondos
feitos de argila e pedras com urtigas.
Os murmúrios obscuros, os rumores dispersos
casavam-se ao olvido e à espessura do longínquo.
No aroma da hora flutuávamos devagar
e se nos abraçávamos as coniventes cortesias
vegetais tornavam-nos vegetais.
Sentíamos no peito os majestosos montes
e o mar estava perto entre duas colinas.
Às vezes as nossas pálpebras desciam
para reter a luz a suave corrente
que de tão longe vinha, do diadema do mundo.
Cada pedra nos dizia o solitário solo
e a imobilidade pura de um nupcial sossego.

3.9.10

Já disse tantas vezes o que disse

Já disse tantas vezes o que disse
sem dizer o que agora não sei se vou dizer
É uma ilusão decerto supor que a palavra se levanta
e arde porque coincide com a substância real
Mas se a palavra não chega a ser uma evidência fértil
do mundo ela é a sede que inventa a sua água
e nós não sabemos se a água é verbal ou líquida substância

O desejo procura a oportunidade de um silêncioso enlace
com um corpo disperso mas de unidade vibrante
Esse corpo está no espaço em voluptuoso abandono
mas nós temos os músculos demasiado rígidos
e a língua não encontra as vogais vivas do veludo do sossego
Era esse corpo que outrora os homens partilhavam sem parti-lo
e de novo nasciam ao nível das virilhas e dos pulmões

Quando será o dia em que reconheceremos os rostos uns dos outros
como frutos fulvos com os seus sulcos de sombra e a sua melodia de nascente?
É esta a comunidade viva com que sempre sonhámos
esta a glória a única da identidade comum
em que os sonhos esvoaçavam com sombras felizes
porque estávamos perto do mar junto de grandes cântaros azuis
atulhados de seiva ou do pólen de grandes girassóis

Mas o paciente escriba acaba por cansar-se
e desejar a presença actual de quanto ele projecta
num futuro possivel ou improvável Ele volta-se
para a pura possibilidade de ser quanto deseja
para ser ele próprio entre o príncipio e o fim
E como quem levanta um largo pano branco
para projectar uma imagem ou uma sombra
depõe a página sobre a mesa do vento
e escreve na violência da frescura estas palavras
Eu escrevo para que o universo diga sim no puro espaço
e esse sim ressoe no meu peito aberto

Não podemos dizer

Não podemos dizer
Cheguei aqui e inverter a perspectiva
olhando para trás
O solo nos solicita
e a sede de ser nos move para a frente
E é então que talvez reconheçamos o que fomos
entre os fragmentos dispersos da nossa identidade

Nós queremos sobretudo a relação mais viva
ainda quando sabemos que ela é incerta ou ilusória
As palavras desviam-se do que as excede ou as quer reter
mas elas querem corresponder com o seu lume frágil
ao que não conhecem mas pressentem para além das fronteiras silenciosas

Talvez toda a relação seja ilusória
mas poderá ser mais verdadeira do que a separação
Só a palavra adolescente não hesita embora trema
e caminhe nua sobre a linha da sua sombra
Tal é a maturidade do juvenil ardor
que abre o caminho que conduz às grandes águas

Quem escreve nunca está só na sua solidão de asceta
O espaço é de ninguém o espaço é ninguém
e de um só mas de um só em todos nós
O cantor modula a voz de mil vozes
O que no poema se move é um território de solidão comum
atraído pelo íman da unidade latente e latejante

Temos de ir ao extremo de uma solitária linha
mas é para voltarmos aqui ao ponto de partida
que já será outro começo e terá o timbre unânime das vozes
embora coadas pela espessura roxa da solidão
Estaremos então entre duas margens entre o princípio e o fim
e seremos mais do que fomos o que poderemos ser
ainda que não venhamos a ser senão o movimento de uma sombra

Já todos os meus gestos têm a geometria de um desenlace

Já todos os meus gestos têm a geometria de um desenlace
e talvez a sua melodia mortal e indelével
Por isso envolvo-me na folhagem onde as cigarras cantam
como se a força do verão tivesse uma cúpula incandescente

Já não é tempo de sonhar não é tempo de guitarras
porque todas as guitarras são de erva
Que tempo é este então? Sinto a fúnebre dolência
das lâmpadas do tempo e das urtigas nas janelas
Poderá ser a palavra a sombra perfumada
do que ela não alcança o perfume da sua sombra?

Como vencer a dúvida suspensa na garganta?
Será que em nós desliza ainda o cisne imaculado do ser?
Ou já não temos outro espaço senão um círculo de pedras e de cinza
de onde já não se vêem as constelações melodiosas
nem o sussurro da monótona folhagem do mar?

À minha primeira questão Quem sou eu?

À minha primeira questão Quem sou eu?
não posso responder mas ela inclina as minhas pobres lâmpadas
para o cerne obscuro de uma obscura folhagem
Se imagino que alguém poderá estar no silêncio
sinto que ele é um ser neutro e anónimo
muda testemunha ausente
e alheia ao que eu sou A um duplo de mim próprio
São os outros os amigos e amantes que me respondem
mas o que me dizem vai sempre além do que eu sou
e assim o espaço do que sou é um deserto
e vejo a minha figura como um espectro oscilante
Sou cada vez mais uma sombra um compartimento vazio
a indolência do ser o que não quero ser
os braços na cabeça um ovo frágil e cinzento
Ó preciosa fragilidade
do que poderia ser
se Deus me iluminasse com o seu hálito
e eu respirasse o silencio da sua face!

Quero ser outro e é outro que eu me vejo

Quero ser outro e é outro que eu me vejo
sentindo que sou eu sem saber quem sou eu
Escrever é sempre outra versão
de um texto que nunca se chegou a compor
Mas é igualmente a diversão
que nos faz vacilar entre o eu e um outro
sem necessitar de ser um ou outro

Há sempre quem procure saber quem é o autor de um texto
como para lhe pedir contas ou referências exactas
mas quem escreve desvia a trajectória paralela
para o ser que já sendo um outro
nunca o é o seu movimento para ele

Ninguém pode decidir Ele é um outro
porque ele é o processo de uma transformação
em que é uma invenção o reconhecimento
e que só é não sendo ou sendo um outro

Agrípia

Agrípia, foi a partir de ti que eu renasci
na luminosa corola de um sorriso
e os meus navios cinzentos e perdidos
seguiram a bondade do teu rumo.
Esta casa não seria a minha casa
se não fosse a tua branca arquitectura
e o teu hálito límpido que me guarda
nas suas tranquilas coordenadas.
Por ti o horizonte está em casa
e nele eu vivo contigo a ondulada
permanência da alma iluminada.

Cerealina

Quando o teu ventre era uma pátria
de cereal e uvas
e se ouvia a lentidão da chuva
sobre as tuas espáduas de basalto.
Quando alimentavas com pão verde
os espectros do vidro
e em teu redor esvoaçavam as aves
que vinham do mar e da montanha.
Quando eras a plenitude da argila
incendiada pelo verão,
todas as janelas estavam abertas, Cerealina,
para a juventude magnética do mar.

Passa uma ave de sombra

Avançar desfazendo
os nós dos nomes
aceitando a oferta nua
na sua abolição

Passa uma ave de sombra
entre as virilhas do sol
e sob a cálida abóbada
a duração redonda
nos seus anéis de pólen
flui sem ecos

A amêndoa do estio
consagra
a lentidão clara
do sossegado desejo
de não ser nada

fotografia e selecção de poemas de João Silva