Já disse tantas vezes o que disse
sem dizer o que agora não sei se vou dizer
É uma ilusão decerto supor que a palavra se levanta
e arde porque coincide com a substância real
Mas se a palavra não chega a ser uma evidência fértil
do mundo ela é a sede que inventa a sua água
e nós não sabemos se a água é verbal ou líquida substância
O desejo procura a oportunidade de um silêncioso enlace
com um corpo disperso mas de unidade vibrante
Esse corpo está no espaço em voluptuoso abandono
mas nós temos os músculos demasiado rígidos
e a língua não encontra as vogais vivas do veludo do sossego
Era esse corpo que outrora os homens partilhavam sem parti-lo
e de novo nasciam ao nível das virilhas e dos pulmões
Quando será o dia em que reconheceremos os rostos uns dos outros
como frutos fulvos com os seus sulcos de sombra e a sua melodia de nascente?
É esta a comunidade viva com que sempre sonhámos
esta a glória a única da identidade comum
em que os sonhos esvoaçavam com sombras felizes
porque estávamos perto do mar junto de grandes cântaros azuis
atulhados de seiva ou do pólen de grandes girassóis
Mas o paciente escriba acaba por cansar-se
e desejar a presença actual de quanto ele projecta
num futuro possivel ou improvável Ele volta-se
para a pura possibilidade de ser quanto deseja
para ser ele próprio entre o príncipio e o fim
E como quem levanta um largo pano branco
para projectar uma imagem ou uma sombra
depõe a página sobre a mesa do vento
e escreve na violência da frescura estas palavras
Eu escrevo para que o universo diga sim no puro espaço
e esse sim ressoe no meu peito aberto
3.9.10
Não podemos dizer
Não podemos dizer
Cheguei aqui e inverter a perspectiva
olhando para trás
O solo nos solicita
e a sede de ser nos move para a frente
E é então que talvez reconheçamos o que fomos
entre os fragmentos dispersos da nossa identidade
Nós queremos sobretudo a relação mais viva
ainda quando sabemos que ela é incerta ou ilusória
As palavras desviam-se do que as excede ou as quer reter
mas elas querem corresponder com o seu lume frágil
ao que não conhecem mas pressentem para além das fronteiras silenciosas
Talvez toda a relação seja ilusória
mas poderá ser mais verdadeira do que a separação
Só a palavra adolescente não hesita embora trema
e caminhe nua sobre a linha da sua sombra
Tal é a maturidade do juvenil ardor
que abre o caminho que conduz às grandes águas
Quem escreve nunca está só na sua solidão de asceta
O espaço é de ninguém o espaço é ninguém
e de um só mas de um só em todos nós
O cantor modula a voz de mil vozes
O que no poema se move é um território de solidão comum
atraído pelo íman da unidade latente e latejante
Temos de ir ao extremo de uma solitária linha
mas é para voltarmos aqui ao ponto de partida
que já será outro começo e terá o timbre unânime das vozes
embora coadas pela espessura roxa da solidão
Estaremos então entre duas margens entre o princípio e o fim
e seremos mais do que fomos o que poderemos ser
ainda que não venhamos a ser senão o movimento de uma sombra
Cheguei aqui e inverter a perspectiva
olhando para trás
O solo nos solicita
e a sede de ser nos move para a frente
E é então que talvez reconheçamos o que fomos
entre os fragmentos dispersos da nossa identidade
Nós queremos sobretudo a relação mais viva
ainda quando sabemos que ela é incerta ou ilusória
As palavras desviam-se do que as excede ou as quer reter
mas elas querem corresponder com o seu lume frágil
ao que não conhecem mas pressentem para além das fronteiras silenciosas
Talvez toda a relação seja ilusória
mas poderá ser mais verdadeira do que a separação
Só a palavra adolescente não hesita embora trema
e caminhe nua sobre a linha da sua sombra
Tal é a maturidade do juvenil ardor
que abre o caminho que conduz às grandes águas
Quem escreve nunca está só na sua solidão de asceta
O espaço é de ninguém o espaço é ninguém
e de um só mas de um só em todos nós
O cantor modula a voz de mil vozes
O que no poema se move é um território de solidão comum
atraído pelo íman da unidade latente e latejante
Temos de ir ao extremo de uma solitária linha
mas é para voltarmos aqui ao ponto de partida
que já será outro começo e terá o timbre unânime das vozes
embora coadas pela espessura roxa da solidão
Estaremos então entre duas margens entre o princípio e o fim
e seremos mais do que fomos o que poderemos ser
ainda que não venhamos a ser senão o movimento de uma sombra
Já todos os meus gestos têm a geometria de um desenlace
Já todos os meus gestos têm a geometria de um desenlace
e talvez a sua melodia mortal e indelével
Por isso envolvo-me na folhagem onde as cigarras cantam
como se a força do verão tivesse uma cúpula incandescente
Já não é tempo de sonhar não é tempo de guitarras
porque todas as guitarras são de erva
Que tempo é este então? Sinto a fúnebre dolência
das lâmpadas do tempo e das urtigas nas janelas
Poderá ser a palavra a sombra perfumada
do que ela não alcança o perfume da sua sombra?
Como vencer a dúvida suspensa na garganta?
Será que em nós desliza ainda o cisne imaculado do ser?
Ou já não temos outro espaço senão um círculo de pedras e de cinza
de onde já não se vêem as constelações melodiosas
nem o sussurro da monótona folhagem do mar?
e talvez a sua melodia mortal e indelével
Por isso envolvo-me na folhagem onde as cigarras cantam
como se a força do verão tivesse uma cúpula incandescente
Já não é tempo de sonhar não é tempo de guitarras
porque todas as guitarras são de erva
Que tempo é este então? Sinto a fúnebre dolência
das lâmpadas do tempo e das urtigas nas janelas
Poderá ser a palavra a sombra perfumada
do que ela não alcança o perfume da sua sombra?
Como vencer a dúvida suspensa na garganta?
Será que em nós desliza ainda o cisne imaculado do ser?
Ou já não temos outro espaço senão um círculo de pedras e de cinza
de onde já não se vêem as constelações melodiosas
nem o sussurro da monótona folhagem do mar?
À minha primeira questão Quem sou eu?
À minha primeira questão Quem sou eu?
não posso responder mas ela inclina as minhas pobres lâmpadas
para o cerne obscuro de uma obscura folhagem
Se imagino que alguém poderá estar no silêncio
sinto que ele é um ser neutro e anónimo
muda testemunha ausente
e alheia ao que eu sou A um duplo de mim próprio
São os outros os amigos e amantes que me respondem
mas o que me dizem vai sempre além do que eu sou
e assim o espaço do que sou é um deserto
e vejo a minha figura como um espectro oscilante
Sou cada vez mais uma sombra um compartimento vazio
a indolência do ser o que não quero ser
os braços na cabeça um ovo frágil e cinzento
Ó preciosa fragilidade
do que poderia ser
se Deus me iluminasse com o seu hálito
e eu respirasse o silencio da sua face!
não posso responder mas ela inclina as minhas pobres lâmpadas
para o cerne obscuro de uma obscura folhagem
Se imagino que alguém poderá estar no silêncio
sinto que ele é um ser neutro e anónimo
muda testemunha ausente
e alheia ao que eu sou A um duplo de mim próprio
São os outros os amigos e amantes que me respondem
mas o que me dizem vai sempre além do que eu sou
e assim o espaço do que sou é um deserto
e vejo a minha figura como um espectro oscilante
Sou cada vez mais uma sombra um compartimento vazio
a indolência do ser o que não quero ser
os braços na cabeça um ovo frágil e cinzento
Ó preciosa fragilidade
do que poderia ser
se Deus me iluminasse com o seu hálito
e eu respirasse o silencio da sua face!
Quero ser outro e é outro que eu me vejo
Quero ser outro e é outro que eu me vejo
sentindo que sou eu sem saber quem sou eu
Escrever é sempre outra versão
de um texto que nunca se chegou a compor
Mas é igualmente a diversão
que nos faz vacilar entre o eu e um outro
sem necessitar de ser um ou outro
Há sempre quem procure saber quem é o autor de um texto
como para lhe pedir contas ou referências exactas
mas quem escreve desvia a trajectória paralela
para o ser que já sendo um outro
nunca o é o seu movimento para ele
Ninguém pode decidir Ele é um outro
porque ele é o processo de uma transformação
em que é uma invenção o reconhecimento
e que só é não sendo ou sendo um outro
sentindo que sou eu sem saber quem sou eu
Escrever é sempre outra versão
de um texto que nunca se chegou a compor
Mas é igualmente a diversão
que nos faz vacilar entre o eu e um outro
sem necessitar de ser um ou outro
Há sempre quem procure saber quem é o autor de um texto
como para lhe pedir contas ou referências exactas
mas quem escreve desvia a trajectória paralela
para o ser que já sendo um outro
nunca o é o seu movimento para ele
Ninguém pode decidir Ele é um outro
porque ele é o processo de uma transformação
em que é uma invenção o reconhecimento
e que só é não sendo ou sendo um outro
Agrípia
Agrípia, foi a partir de ti que eu renasci
na luminosa corola de um sorriso
e os meus navios cinzentos e perdidos
seguiram a bondade do teu rumo.
Esta casa não seria a minha casa
se não fosse a tua branca arquitectura
e o teu hálito límpido que me guarda
nas suas tranquilas coordenadas.
Por ti o horizonte está em casa
e nele eu vivo contigo a ondulada
permanência da alma iluminada.
na luminosa corola de um sorriso
e os meus navios cinzentos e perdidos
seguiram a bondade do teu rumo.
Esta casa não seria a minha casa
se não fosse a tua branca arquitectura
e o teu hálito límpido que me guarda
nas suas tranquilas coordenadas.
Por ti o horizonte está em casa
e nele eu vivo contigo a ondulada
permanência da alma iluminada.
Cerealina
Quando o teu ventre era uma pátria
de cereal e uvas
e se ouvia a lentidão da chuva
sobre as tuas espáduas de basalto.
Quando alimentavas com pão verde
os espectros do vidro
e em teu redor esvoaçavam as aves
que vinham do mar e da montanha.
Quando eras a plenitude da argila
incendiada pelo verão,
todas as janelas estavam abertas, Cerealina,
para a juventude magnética do mar.
de cereal e uvas
e se ouvia a lentidão da chuva
sobre as tuas espáduas de basalto.
Quando alimentavas com pão verde
os espectros do vidro
e em teu redor esvoaçavam as aves
que vinham do mar e da montanha.
Quando eras a plenitude da argila
incendiada pelo verão,
todas as janelas estavam abertas, Cerealina,
para a juventude magnética do mar.
Passa uma ave de sombra
Avançar desfazendo
os nós dos nomes
aceitando a oferta nua
na sua abolição
Passa uma ave de sombra
entre as virilhas do sol
e sob a cálida abóbada
a duração redonda
nos seus anéis de pólen
flui sem ecos
A amêndoa do estio
consagra
a lentidão clara
do sossegado desejo
de não ser nada
os nós dos nomes
aceitando a oferta nua
na sua abolição
Passa uma ave de sombra
entre as virilhas do sol
e sob a cálida abóbada
a duração redonda
nos seus anéis de pólen
flui sem ecos
A amêndoa do estio
consagra
a lentidão clara
do sossegado desejo
de não ser nada
3.1.10
Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem
Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem
ou para beber a água de um espelho
ou para se embriagar como um pássaro ingénuo
A sôfrega retina
vai-se tornando felina e inflada
e os seus liames tremem entre o júbilo e a agonia
Um livro é redondo como uma serpente enrolada
e formado de fragmentos onde lateja o sangue de um pulso
que já não é de um autor que nunca o foi
e que será sempre o ritmo do que está a nascer
irrigando o nada e os terraços sobre os abismos
Nunca o livro se completa embora o redondo o circunde
e o mova para o seu interior sem nunca o envolver
Jamais a nuvem se dissipa mesmo quando a claridade ofusca
Como se fosse preciso adormecer nela como sobre os ombros do mundo
para acompanhar o seu fluxo ingénuamente novo
com os delicados diademas de fogo e espuma
O livro ora é de veludo ora de bronze
e os seus traços abrem janelas ou terraços
sobre o corpo latente como um arbusto entre as pedras
Se a palavra vibra com um meteoro ou desliza como uma anémona
ou não é mais do que uma estrela de areia
a sua proa sulca o incessante intervalo
entre o ardor de incompletos liames
e a estátua aérea que se eleva à sua frente
e continuamente se forma e se deforma
por não ser nada e ser o alvo puro
de um movimento ingénuo sonâmbulo e incerto
ou para beber a água de um espelho
ou para se embriagar como um pássaro ingénuo
A sôfrega retina
vai-se tornando felina e inflada
e os seus liames tremem entre o júbilo e a agonia
Um livro é redondo como uma serpente enrolada
e formado de fragmentos onde lateja o sangue de um pulso
que já não é de um autor que nunca o foi
e que será sempre o ritmo do que está a nascer
irrigando o nada e os terraços sobre os abismos
Nunca o livro se completa embora o redondo o circunde
e o mova para o seu interior sem nunca o envolver
Jamais a nuvem se dissipa mesmo quando a claridade ofusca
Como se fosse preciso adormecer nela como sobre os ombros do mundo
para acompanhar o seu fluxo ingénuamente novo
com os delicados diademas de fogo e espuma
O livro ora é de veludo ora de bronze
e os seus traços abrem janelas ou terraços
sobre o corpo latente como um arbusto entre as pedras
Se a palavra vibra com um meteoro ou desliza como uma anémona
ou não é mais do que uma estrela de areia
a sua proa sulca o incessante intervalo
entre o ardor de incompletos liames
e a estátua aérea que se eleva à sua frente
e continuamente se forma e se deforma
por não ser nada e ser o alvo puro
de um movimento ingénuo sonâmbulo e incerto
Etiquetas:
Delta seguido de Pela primeira vez (1996)
Deita-se num copo minúsculas constelações
Deita-se num copo minúsculas constelações
uma língua verde purpúrea ou dourada
e talvez um lábio com uma sílaba retida
Pode-se ainda acrescentar o sémen de um adolescente
um pedaço de incandescente carvão
uma pálpebra azul ou uma amendoa verde
um pequeno feixe de trigo um umbigo róseo
um peixe bizarro uma lãmina transparente
uma solitária estrela de musgo
a saliva de dois amantes entre um cavalo negro e outro branco
as estrilhas de um cálice cristalino
Tremos por fim fabricado uma lâmpada
e nunca mais nos lembraremos da imaginada matéria
que a torna incandescente e luminosa
uma língua verde purpúrea ou dourada
e talvez um lábio com uma sílaba retida
Pode-se ainda acrescentar o sémen de um adolescente
um pedaço de incandescente carvão
uma pálpebra azul ou uma amendoa verde
um pequeno feixe de trigo um umbigo róseo
um peixe bizarro uma lãmina transparente
uma solitária estrela de musgo
a saliva de dois amantes entre um cavalo negro e outro branco
as estrilhas de um cálice cristalino
Tremos por fim fabricado uma lâmpada
e nunca mais nos lembraremos da imaginada matéria
que a torna incandescente e luminosa
Etiquetas:
Delta seguido de Pela primeira vez (1996)
Não desisti de habitar a arca azul
Não desisti de habitar a arca azul
do antiquíssimo sossego do universo.
A minha ascendencia é o sol e uma montanha verde
e a lisa ondulação do mar unânime.
Há novecentas mil nebulosas espirais
mas só o teu corpo é um arbusto que sangra
e tem lábios eléctricos e perfuma as paredes.
Aos confins tranquilos entre ilhas mar e montes
vou buscar o veludo e ouro da nostalgia.
Deponho a minha cabeça frágil sobre as mãos
de uma mulher de onde a chuva jorra pelos poros.
Ó nascente clara e mais ardente do que o sangue,
sorvo o cálice do teu sexo de orquídea incandescente!
A minha vida é uma lenta pulsação
sob o grande vinho da sombra, sob o sono do sol.
Há bois lentos e profundos no meu corpo
de um outono compacto e negro com um século.
Com simultâneas estrelas nas têmporas e nas mãos
a deusa da noite, sonâmbula, desliza.
Ao rumor da folhagem e da areia
escrevo o teu odor de sangue, a tua livre arquitectura.
Prisioneiro de longínquas raízes
ergo sobre a minha ferida uma torre vertical.
Vislumbro uma luz incompreensivel
sobre os campos áridos das semanas.
Elevo o canto profundo do meu corpo
sob o arco das tuas pernas deslumbrantes.
Escrevo como se escrevesse com os meus pulmões
ou como se tocasse os teus joelhos planetários
ou adormecesse languidamente no teu sexo.
do antiquíssimo sossego do universo.
A minha ascendencia é o sol e uma montanha verde
e a lisa ondulação do mar unânime.
Há novecentas mil nebulosas espirais
mas só o teu corpo é um arbusto que sangra
e tem lábios eléctricos e perfuma as paredes.
Aos confins tranquilos entre ilhas mar e montes
vou buscar o veludo e ouro da nostalgia.
Deponho a minha cabeça frágil sobre as mãos
de uma mulher de onde a chuva jorra pelos poros.
Ó nascente clara e mais ardente do que o sangue,
sorvo o cálice do teu sexo de orquídea incandescente!
A minha vida é uma lenta pulsação
sob o grande vinho da sombra, sob o sono do sol.
Há bois lentos e profundos no meu corpo
de um outono compacto e negro com um século.
Com simultâneas estrelas nas têmporas e nas mãos
a deusa da noite, sonâmbula, desliza.
Ao rumor da folhagem e da areia
escrevo o teu odor de sangue, a tua livre arquitectura.
Prisioneiro de longínquas raízes
ergo sobre a minha ferida uma torre vertical.
Vislumbro uma luz incompreensivel
sobre os campos áridos das semanas.
Elevo o canto profundo do meu corpo
sob o arco das tuas pernas deslumbrantes.
Escrevo como se escrevesse com os meus pulmões
ou como se tocasse os teus joelhos planetários
ou adormecesse languidamente no teu sexo.
2.1.10
Navegava no navio da matéria
Navegava no navio da matéria
a melodia da sede cintilava
sob o pólen branco do silêncio
Sobre o veludo unânime das veias
viu as corolas e os cálices dos fósseis
os pássaros da seiva
os diamantes de musgo
a voluptuosa água da semelhança viva
O cristal da concha mais secreta
era negro sob a sombra ferida
e verde
e a sua língua era uma chama branca
aberta como um livro
Abeirou-se de uma crespa cabeleira negra
entre sumptuosas luas
viu as sinuosas artérias entre as asas de areia
a oscilação ritmica de um ventre
como uma lisa viola de coral
e bebeu a espessa água da profunda floresta
Na sua sede extrema na sua fragilidade pura
acariciava os veios dos astros vegetais
o flutuante tronco primaveril e arcaico
em que lábios adormecidos se ofereciam
num cálido sopro polvilhado de pólen
Era uma ânfora na duna era um barco fendido
de cintilante mercúrio
era uma ilha de palpebras
uma mulher de flancos de nascente
e de cãmaras de verdura
era a lenta pátria da terra o continente azul
do silêncio do nascimento solar
para adormecer sem espelhos
ao rés do horizonte
a melodia da sede cintilava
sob o pólen branco do silêncio
Sobre o veludo unânime das veias
viu as corolas e os cálices dos fósseis
os pássaros da seiva
os diamantes de musgo
a voluptuosa água da semelhança viva
O cristal da concha mais secreta
era negro sob a sombra ferida
e verde
e a sua língua era uma chama branca
aberta como um livro
Abeirou-se de uma crespa cabeleira negra
entre sumptuosas luas
viu as sinuosas artérias entre as asas de areia
a oscilação ritmica de um ventre
como uma lisa viola de coral
e bebeu a espessa água da profunda floresta
Na sua sede extrema na sua fragilidade pura
acariciava os veios dos astros vegetais
o flutuante tronco primaveril e arcaico
em que lábios adormecidos se ofereciam
num cálido sopro polvilhado de pólen
Era uma ânfora na duna era um barco fendido
de cintilante mercúrio
era uma ilha de palpebras
uma mulher de flancos de nascente
e de cãmaras de verdura
era a lenta pátria da terra o continente azul
do silêncio do nascimento solar
para adormecer sem espelhos
ao rés do horizonte
Tu procuras saber
Tu procuras saber
eu não procuro porque sei que nunca saberei
Tu queres abrir as portas do conhecimento para fundares
a tua integridade
Eu entrego-me ao vago e indefinível vagar
da luz sobre a página que nunca é um oásis
e não conduz ao plácido porto que nela pressentimos
Tu desejas ir além das sequências quotidianas
eu procuro também um além
mas no interior da sombra do meu corpo
ao ritmo da respiração
para fortalecer a minha incerta identidade
Tu não desistes de conhecer a lucidez do centro
para que a vida encontre o seu equlibrio e o seu horizonte
Eu não conheço outro horizonte além da vaga claridade
que ás vezes brilha no silêncio de um abandono
ou no fluir das palavras que procuram a nudez
Tu procuras algo que transcenda o mundo
eu procuro o mundo no mundo ou para aquém dele
Eu sei que a fragilidade pode cintilar
como uma constelação ou como um delta
quando o corpo se entrega sobre as dunas do silêncio
Tu queres ser a coluna ou a balança viva
do puro equilíbrio que sustenta o mundo
eu não procuro porque sei que nunca saberei
Tu queres abrir as portas do conhecimento para fundares
a tua integridade
Eu entrego-me ao vago e indefinível vagar
da luz sobre a página que nunca é um oásis
e não conduz ao plácido porto que nela pressentimos
Tu desejas ir além das sequências quotidianas
eu procuro também um além
mas no interior da sombra do meu corpo
ao ritmo da respiração
para fortalecer a minha incerta identidade
Tu não desistes de conhecer a lucidez do centro
para que a vida encontre o seu equlibrio e o seu horizonte
Eu não conheço outro horizonte além da vaga claridade
que ás vezes brilha no silêncio de um abandono
ou no fluir das palavras que procuram a nudez
Tu procuras algo que transcenda o mundo
eu procuro o mundo no mundo ou para aquém dele
Eu sei que a fragilidade pode cintilar
como uma constelação ou como um delta
quando o corpo se entrega sobre as dunas do silêncio
Tu queres ser a coluna ou a balança viva
do puro equilíbrio que sustenta o mundo
24.8.08
Amo o teu túmido candor de astro
Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade sempre altiva
Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hábito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata
Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar
Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade sempre altiva
Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hábito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata
Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar
Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto
O leitor sob esta lâmpada verá
O leitor sob esta lâmpada verá
não os fortuitos movimentos de duas sombras
entre pequenos monstros de pedra ou cinza
nem as aranhas vermelhas de uma noite obscena
mas só as imediatas lanças que frementes
abrem espaço na margem do silêncio
ou penetram no bosque onde o possível é azul
A rede do poema é a rede dos seus braços
envoltos numa teia de argila e de veludo
Não há nenhum firmamento para proteger os passos
e os grãos de areia estalam sob os pés
Mas a transparência surge quando o pulso
desenha as delicadas veias transparentes
de um corpo futuro cujo púbis de água
o incompleto lábio do poema beija na brancura
não os fortuitos movimentos de duas sombras
entre pequenos monstros de pedra ou cinza
nem as aranhas vermelhas de uma noite obscena
mas só as imediatas lanças que frementes
abrem espaço na margem do silêncio
ou penetram no bosque onde o possível é azul
A rede do poema é a rede dos seus braços
envoltos numa teia de argila e de veludo
Não há nenhum firmamento para proteger os passos
e os grãos de areia estalam sob os pés
Mas a transparência surge quando o pulso
desenha as delicadas veias transparentes
de um corpo futuro cujo púbis de água
o incompleto lábio do poema beija na brancura
Ouço o galope surdo do cavalo do sangue
Ouço o galope surdo do cavalo do sangue
através do silêncio de uma montanha vazia
Estarei vivo ainda? O meu pulso é tão ténue
Sou alguém que perdeu o musgo fértil de uma estrela
Sou ainda um felino com a boca fulminada
Quero converter-me numa serpente de sal
para adormecer no umbigo de uma mulher de quartzo
Sou alguém que quer criar a euritmia nupcial
com o sémen verde do seu sexo de argila
Inclino-me para a clareira vazia para purificar o meu delírio
e encontar as armas vegetais as armas nuas
entre diademas de areia e constelações de líquenes
Sigo as imagens da água na sua monótona fluidez
num ardor de silêncios de ténues florescências
e as minhas palavras tremem como arcos de água
e o meu pulso treme como o pulso de um país
que de fragilidade em fragilidade vai singrando
rumo à linha alta do renovo
Sinto o bafo de uma boca amante
de um rosto de olhos claros de pastora
e o fogo de oiro do seu sorriso aéreo
de uma lealdade fluida e inicial
É o espaço é o horizonte é a estrela branca
é um arbusto selvagem rutilante
é uma rapariga numa torre de silêncio
é uma amendoeira num circulo vazio
Todas as imagens se reúnem numa gota de água
e é aí que eu nasço sobre o seio da terra
para descer para adorar com o sémen e o suor
a nudez de um corpo de flecha
entregue à sua vocação aérea mas fixo
nas suas espessas vértebras de argila
através do silêncio de uma montanha vazia
Estarei vivo ainda? O meu pulso é tão ténue
Sou alguém que perdeu o musgo fértil de uma estrela
Sou ainda um felino com a boca fulminada
Quero converter-me numa serpente de sal
para adormecer no umbigo de uma mulher de quartzo
Sou alguém que quer criar a euritmia nupcial
com o sémen verde do seu sexo de argila
Inclino-me para a clareira vazia para purificar o meu delírio
e encontar as armas vegetais as armas nuas
entre diademas de areia e constelações de líquenes
Sigo as imagens da água na sua monótona fluidez
num ardor de silêncios de ténues florescências
e as minhas palavras tremem como arcos de água
e o meu pulso treme como o pulso de um país
que de fragilidade em fragilidade vai singrando
rumo à linha alta do renovo
Sinto o bafo de uma boca amante
de um rosto de olhos claros de pastora
e o fogo de oiro do seu sorriso aéreo
de uma lealdade fluida e inicial
É o espaço é o horizonte é a estrela branca
é um arbusto selvagem rutilante
é uma rapariga numa torre de silêncio
é uma amendoeira num circulo vazio
Todas as imagens se reúnem numa gota de água
e é aí que eu nasço sobre o seio da terra
para descer para adorar com o sémen e o suor
a nudez de um corpo de flecha
entregue à sua vocação aérea mas fixo
nas suas espessas vértebras de argila
Assimilando a árvore a borboleta e os gatos
Assimilando a árvore a borboleta e os gatos
no amarelo fragrante e no silencioso redemoinho
com a saliva do calor e os escuros fragmentos
regresso à lentidão de um baile a um violoncelo
tocado por um gnomo sobre um telhado de metal
Trago uma lâmpada de orvalho para atravessar o abismo
e um pássaro adormecido sobre uma folha verde
Entre madeira e sombra, sob uma plácida lua
mobilizo os cristais nocturnos e as vespas azuis
entre as constelações que dialogam num tranquilo tremor
Sob as clavículas das árvores e copas flutuantes
enuncio a materna cascata e as metáforas que respiram
Movo a escultura do desejo na diagonal aspirada
e na fragrância do arco quando a consistência
é a bondade que flui entre os cornos da dança
Atravesso os murmúrios disfarçados ou os símbolos
que alçam as lânguidas cabeças submersas
até que os signos os alcancem e os respirem
Rio nas pausas da harmonia e no incêndio das alfombras
Escondo-me num olho e voo dentro da sombra
Nas nuvens passam touros brancos e águias verdes
Sedento movo as paredes na ternura da água
Aperto a suave madeira de um corpo e as suas cavernas vivas
enquanto deslizam as lentas estrelas sobre a água
Nos jardins minúsculos a brevidade e a delicadeza
Os conceitossuspiram entre a língua das flores
Guitarra e musgo e tempo acariciado
perpetuam o crepúsculo e a ausência de perguntas
Mulheres com sombrinhas descalças sobre a praia
o vento revolve-lhes as lâmpadas e as saias
Coloco a mão na âncora deste ritmo
O sangue penetra a garganta o sangue das flautas
e abre-se o tenaz labirinto voluptuoso
que é um órgão do sol e um violino da lua
De poro a poro, de poro a fruto, de fruto a estrela
uma água enigmática desliza entre carícias
Perpetua-se o prelúdio da metamorfose da matéria
e o corpo saboreia o horizontal relâmpago
no amarelo fragrante e no silencioso redemoinho
com a saliva do calor e os escuros fragmentos
regresso à lentidão de um baile a um violoncelo
tocado por um gnomo sobre um telhado de metal
Trago uma lâmpada de orvalho para atravessar o abismo
e um pássaro adormecido sobre uma folha verde
Entre madeira e sombra, sob uma plácida lua
mobilizo os cristais nocturnos e as vespas azuis
entre as constelações que dialogam num tranquilo tremor
Sob as clavículas das árvores e copas flutuantes
enuncio a materna cascata e as metáforas que respiram
Movo a escultura do desejo na diagonal aspirada
e na fragrância do arco quando a consistência
é a bondade que flui entre os cornos da dança
Atravesso os murmúrios disfarçados ou os símbolos
que alçam as lânguidas cabeças submersas
até que os signos os alcancem e os respirem
Rio nas pausas da harmonia e no incêndio das alfombras
Escondo-me num olho e voo dentro da sombra
Nas nuvens passam touros brancos e águias verdes
Sedento movo as paredes na ternura da água
Aperto a suave madeira de um corpo e as suas cavernas vivas
enquanto deslizam as lentas estrelas sobre a água
Nos jardins minúsculos a brevidade e a delicadeza
Os conceitossuspiram entre a língua das flores
Guitarra e musgo e tempo acariciado
perpetuam o crepúsculo e a ausência de perguntas
Mulheres com sombrinhas descalças sobre a praia
o vento revolve-lhes as lâmpadas e as saias
Coloco a mão na âncora deste ritmo
O sangue penetra a garganta o sangue das flautas
e abre-se o tenaz labirinto voluptuoso
que é um órgão do sol e um violino da lua
De poro a poro, de poro a fruto, de fruto a estrela
uma água enigmática desliza entre carícias
Perpetua-se o prelúdio da metamorfose da matéria
e o corpo saboreia o horizontal relâmpago
Sempre a aprendizagem do sossego
Sempre a aprendizagem do sossego
a evidência enigmática do silêncio
não mais que um esboço a furtiva sombra
da cor futura a ínfima inscrição
do pólen
a concha de sangue a sombra de uma folha
o murmúrio de um delicado insecto
a confiança num segredo que é espaço
a adesão às linhas de uma pedra pura
um abrigo da terra a semelhança
uma sombra de vermelho ocre
a cintilação da matéria o puro sabor
de um fruto azul o natal letargo
dentro do lúmen
a evidência enigmática do silêncio
não mais que um esboço a furtiva sombra
da cor futura a ínfima inscrição
do pólen
a concha de sangue a sombra de uma folha
o murmúrio de um delicado insecto
a confiança num segredo que é espaço
a adesão às linhas de uma pedra pura
um abrigo da terra a semelhança
uma sombra de vermelho ocre
a cintilação da matéria o puro sabor
de um fruto azul o natal letargo
dentro do lúmen
A partir dos limites das palavras
A partir dos limites
das palavras
das árvores
o amor das árvores
as frases do desejo
as sombras
brancas
de outras palavras
outras
outras palavras
brancas
o trajecto
mais breve
de uma sombra a outra
pode ser
outra sombra
A partir das palavras
e do amor das árvores
das palavras
das árvores
o amor das árvores
as frases do desejo
as sombras
brancas
de outras palavras
outras
outras palavras
brancas
o trajecto
mais breve
de uma sombra a outra
pode ser
outra sombra
A partir das palavras
e do amor das árvores
Atento, vejo a chama fulva da abelha
Atento, vejo a chama fulva da abelha
e a cadência do desejo monótono vagabundo
num pequeno corpo ardente e frágil.
O mundo aqui é um sopro verde
em que tudo flui em silenciosos gozos.
Na delícia do ócio o pensamento
entrega-se ao vento e ao olvido.
Só o desejo ordena o fluente ardor
que em mil meandros se propaga no ar.
E de tanto respirar essa pátria volante
eu próprio sou a espessa substância do bosque.
e a cadência do desejo monótono vagabundo
num pequeno corpo ardente e frágil.
O mundo aqui é um sopro verde
em que tudo flui em silenciosos gozos.
Na delícia do ócio o pensamento
entrega-se ao vento e ao olvido.
Só o desejo ordena o fluente ardor
que em mil meandros se propaga no ar.
E de tanto respirar essa pátria volante
eu próprio sou a espessa substância do bosque.
Também de rasgões é feito o poema
Também de rasgões é feito o poema
entre uma possível estrela e a carne dolorosa
E nele se desenha a sombra de um crânio
ou as mãos vazias que perderam o rasto
de um segredo evidentemente submerso no opaco
entre uma possível estrela e a carne dolorosa
E nele se desenha a sombra de um crânio
ou as mãos vazias que perderam o rasto
de um segredo evidentemente submerso no opaco
Todo o tempo perdido
Todo o tempo perdido
para não me perder
para não sufocar
Poderei ainda
reconhecer
atrás das pálpebras
a intacta ferida?
para não me perder
para não sufocar
Poderei ainda
reconhecer
atrás das pálpebras
a intacta ferida?
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