3.9.10

Passa uma ave de sombra

Avançar desfazendo
os nós dos nomes
aceitando a oferta nua
na sua abolição

Passa uma ave de sombra
entre as virilhas do sol
e sob a cálida abóbada
a duração redonda
nos seus anéis de pólen
flui sem ecos

A amêndoa do estio
consagra
a lentidão clara
do sossegado desejo
de não ser nada

3.1.10

Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem

Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem
ou para beber a água de um espelho
ou para se embriagar como um pássaro ingénuo
A sôfrega retina
vai-se tornando felina e inflada
e os seus liames tremem entre o júbilo e a agonia
Um livro é redondo como uma serpente enrolada
e formado de fragmentos onde lateja o sangue de um pulso
que já não é de um autor que nunca o foi
e que será sempre o ritmo do que está a nascer
irrigando o nada e os terraços sobre os abismos
Nunca o livro se completa embora o redondo o circunde
e o mova para o seu interior sem nunca o envolver
Jamais a nuvem se dissipa mesmo quando a claridade ofusca
Como se fosse preciso adormecer nela como sobre os ombros do mundo
para acompanhar o seu fluxo ingénuamente novo
com os delicados diademas de fogo e espuma
O livro ora é de veludo ora de bronze
e os seus traços abrem janelas ou terraços
sobre o corpo latente como um arbusto entre as pedras
Se a palavra vibra com um meteoro ou desliza como uma anémona
ou não é mais do que uma estrela de areia
a sua proa sulca o incessante intervalo
entre o ardor de incompletos liames
e a estátua aérea que se eleva à sua frente
e continuamente se forma e se deforma
por não ser nada e ser o alvo puro
de um movimento ingénuo sonâmbulo e incerto

Deita-se num copo minúsculas constelações

Deita-se num copo minúsculas constelações
uma língua verde purpúrea ou dourada
e talvez um lábio com uma sílaba retida
Pode-se ainda acrescentar o sémen de um adolescente
um pedaço de incandescente carvão
uma pálpebra azul ou uma amendoa verde
um pequeno feixe de trigo um umbigo róseo
um peixe bizarro uma lãmina transparente
uma solitária estrela de musgo
a saliva de dois amantes entre um cavalo negro e outro branco
as estrilhas de um cálice cristalino
Tremos por fim fabricado uma lâmpada
e nunca mais nos lembraremos da imaginada matéria
que a torna incandescente e luminosa

Não desisti de habitar a arca azul

Não desisti de habitar a arca azul
do antiquíssimo sossego do universo.
A minha ascendencia é o sol e uma montanha verde
e a lisa ondulação do mar unânime.
Há novecentas mil nebulosas espirais
mas só o teu corpo é um arbusto que sangra
e tem lábios eléctricos e perfuma as paredes.
Aos confins tranquilos entre ilhas mar e montes
vou buscar o veludo e ouro da nostalgia.
Deponho a minha cabeça frágil sobre as mãos
de uma mulher de onde a chuva jorra pelos poros.
Ó nascente clara e mais ardente do que o sangue,
sorvo o cálice do teu sexo de orquídea incandescente!
A minha vida é uma lenta pulsação
sob o grande vinho da sombra, sob o sono do sol.
Há bois lentos e profundos no meu corpo
de um outono compacto e negro com um século.
Com simultâneas estrelas nas têmporas e nas mãos
a deusa da noite, sonâmbula, desliza.
Ao rumor da folhagem e da areia
escrevo o teu odor de sangue, a tua livre arquitectura.
Prisioneiro de longínquas raízes
ergo sobre a minha ferida uma torre vertical.
Vislumbro uma luz incompreensivel
sobre os campos áridos das semanas.
Elevo o canto profundo do meu corpo
sob o arco das tuas pernas deslumbrantes.
Escrevo como se escrevesse com os meus pulmões
ou como se tocasse os teus joelhos planetários
ou adormecesse languidamente no teu sexo.

2.1.10

Navegava no navio da matéria

Navegava no navio da matéria
a melodia da sede cintilava
sob o pólen branco do silêncio
Sobre o veludo unânime das veias
viu as corolas e os cálices dos fósseis
os pássaros da seiva
os diamantes de musgo
a voluptuosa água da semelhança viva

O cristal da concha mais secreta
era negro sob a sombra ferida
e verde
e a sua língua era uma chama branca
aberta como um livro

Abeirou-se de uma crespa cabeleira negra
entre sumptuosas luas
viu as sinuosas artérias entre as asas de areia
a oscilação ritmica de um ventre
como uma lisa viola de coral
e bebeu a espessa água da profunda floresta

Na sua sede extrema na sua fragilidade pura
acariciava os veios dos astros vegetais
o flutuante tronco primaveril e arcaico
em que lábios adormecidos se ofereciam
num cálido sopro polvilhado de pólen
Era uma ânfora na duna era um barco fendido
de cintilante mercúrio
era uma ilha de palpebras
uma mulher de flancos de nascente
e de cãmaras de verdura
era a lenta pátria da terra o continente azul
do silêncio do nascimento solar
para adormecer sem espelhos
ao rés do horizonte

Tu procuras saber

Tu procuras saber
eu não procuro porque sei que nunca saberei
Tu queres abrir as portas do conhecimento para fundares
a tua integridade
Eu entrego-me ao vago e indefinível vagar
da luz sobre a página que nunca é um oásis
e não conduz ao plácido porto que nela pressentimos
Tu desejas ir além das sequências quotidianas
eu procuro também um além
mas no interior da sombra do meu corpo
ao ritmo da respiração
para fortalecer a minha incerta identidade
Tu não desistes de conhecer a lucidez do centro
para que a vida encontre o seu equlibrio e o seu horizonte
Eu não conheço outro horizonte além da vaga claridade
que ás vezes brilha no silêncio de um abandono
ou no fluir das palavras que procuram a nudez
Tu procuras algo que transcenda o mundo
eu procuro o mundo no mundo ou para aquém dele
Eu sei que a fragilidade pode cintilar
como uma constelação ou como um delta
quando o corpo se entrega sobre as dunas do silêncio
Tu queres ser a coluna ou a balança viva
do puro equilíbrio que sustenta o mundo

24.8.08

Amo o teu túmido candor de astro

Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hábito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto

O leitor sob esta lâmpada verá

O leitor sob esta lâmpada verá
não os fortuitos movimentos de duas sombras
entre pequenos monstros de pedra ou cinza
nem as aranhas vermelhas de uma noite obscena
mas só as imediatas lanças que frementes
abrem espaço na margem do silêncio
ou penetram no bosque onde o possível é azul

A rede do poema é a rede dos seus braços
envoltos numa teia de argila e de veludo
Não há nenhum firmamento para proteger os passos
e os grãos de areia estalam sob os pés
Mas a transparência surge quando o pulso
desenha as delicadas veias transparentes
de um corpo futuro cujo púbis de água
o incompleto lábio do poema beija na brancura

Ouço o galope surdo do cavalo do sangue

Ouço o galope surdo do cavalo do sangue
através do silêncio de uma montanha vazia
Estarei vivo ainda? O meu pulso é tão ténue
Sou alguém que perdeu o musgo fértil de uma estrela
Sou ainda um felino com a boca fulminada
Quero converter-me numa serpente de sal
para adormecer no umbigo de uma mulher de quartzo
Sou alguém que quer criar a euritmia nupcial
com o sémen verde do seu sexo de argila
Inclino-me para a clareira vazia para purificar o meu delírio
e encontar as armas vegetais as armas nuas
entre diademas de areia e constelações de líquenes
Sigo as imagens da água na sua monótona fluidez
num ardor de silêncios de ténues florescências
e as minhas palavras tremem como arcos de água
e o meu pulso treme como o pulso de um país
que de fragilidade em fragilidade vai singrando
rumo à linha alta do renovo
Sinto o bafo de uma boca amante
de um rosto de olhos claros de pastora
e o fogo de oiro do seu sorriso aéreo
de uma lealdade fluida e inicial
É o espaço é o horizonte é a estrela branca
é um arbusto selvagem rutilante
é uma rapariga numa torre de silêncio
é uma amendoeira num circulo vazio
Todas as imagens se reúnem numa gota de água
e é aí que eu nasço sobre o seio da terra
para descer para adorar com o sémen e o suor
a nudez de um corpo de flecha
entregue à sua vocação aérea mas fixo
nas suas espessas vértebras de argila

Assimilando a árvore a borboleta e os gatos

Assimilando a árvore a borboleta e os gatos
no amarelo fragrante e no silencioso redemoinho
com a saliva do calor e os escuros fragmentos
regresso à lentidão de um baile a um violoncelo
tocado por um gnomo sobre um telhado de metal
Trago uma lâmpada de orvalho para atravessar o abismo
e um pássaro adormecido sobre uma folha verde
Entre madeira e sombra, sob uma plácida lua
mobilizo os cristais nocturnos e as vespas azuis
entre as constelações que dialogam num tranquilo tremor
Sob as clavículas das árvores e copas flutuantes
enuncio a materna cascata e as metáforas que respiram
Movo a escultura do desejo na diagonal aspirada
e na fragrância do arco quando a consistência
é a bondade que flui entre os cornos da dança
Atravesso os murmúrios disfarçados ou os símbolos
que alçam as lânguidas cabeças submersas
até que os signos os alcancem e os respirem
Rio nas pausas da harmonia e no incêndio das alfombras
Escondo-me num olho e voo dentro da sombra
Nas nuvens passam touros brancos e águias verdes
Sedento movo as paredes na ternura da água
Aperto a suave madeira de um corpo e as suas cavernas vivas
enquanto deslizam as lentas estrelas sobre a água
Nos jardins minúsculos a brevidade e a delicadeza
Os conceitossuspiram entre a língua das flores
Guitarra e musgo e tempo acariciado
perpetuam o crepúsculo e a ausência de perguntas
Mulheres com sombrinhas descalças sobre a praia
o vento revolve-lhes as lâmpadas e as saias
Coloco a mão na âncora deste ritmo
O sangue penetra a garganta o sangue das flautas
e abre-se o tenaz labirinto voluptuoso
que é um órgão do sol e um violino da lua
De poro a poro, de poro a fruto, de fruto a estrela
uma água enigmática desliza entre carícias
Perpetua-se o prelúdio da metamorfose da matéria
e o corpo saboreia o horizontal relâmpago

Sempre a aprendizagem do sossego

Sempre a aprendizagem do sossego
a evidência enigmática do silêncio
não mais que um esboço a furtiva sombra
da cor futura a ínfima inscrição
do pólen

a concha de sangue a sombra de uma folha
o murmúrio de um delicado insecto
a confiança num segredo que é espaço
a adesão às linhas de uma pedra pura

um abrigo da terra a semelhança
uma sombra de vermelho ocre
a cintilação da matéria o puro sabor
de um fruto azul o natal letargo
dentro do lúmen

A partir dos limites das palavras

A partir dos limites
das palavras
das árvores
o amor das árvores
as frases do desejo
as sombras
brancas
de outras palavras
outras
outras palavras
brancas

o trajecto
mais breve
de uma sombra a outra
pode ser
outra sombra

A partir das palavras
e do amor das árvores

Atento, vejo a chama fulva da abelha

Atento, vejo a chama fulva da abelha
e a cadência do desejo monótono vagabundo
num pequeno corpo ardente e frágil.
O mundo aqui é um sopro verde
em que tudo flui em silenciosos gozos.
Na delícia do ócio o pensamento
entrega-se ao vento e ao olvido.
Só o desejo ordena o fluente ardor
que em mil meandros se propaga no ar.
E de tanto respirar essa pátria volante
eu próprio sou a espessa substância do bosque.

Também de rasgões é feito o poema

Também de rasgões é feito o poema
entre uma possível estrela e a carne dolorosa
E nele se desenha a sombra de um crânio
ou as mãos vazias que perderam o rasto
de um segredo evidentemente submerso no opaco

Todo o tempo perdido

Todo o tempo perdido
para não me perder
para não sufocar

Poderei ainda
reconhecer
atrás das pálpebras
a intacta ferida?

Para que uma só coisa

Para que uma só coisa
vibre
na sua presença nua
para além da conjunção dos possíveis


é preciso que o silêncio a dispa
e o seu nome seja o seu próprio pudor

A partitura do impossível

Quem grita surdamente
não pertence
à partitura do tempo.
Quem grita em altos gritos
não pertence
à sinfonia das nuvens.
Qual é o músico
que trabalha com
a imensidade do negro
e a agonia sem esperança?

Decantação da casa

De decantar a casa à flor do sono
para recolher os animais marinhos
que fluem na sombra entre jarras esquias
se difunde a inteligência de estar
e o mundo se adensa estremecendo
por entre as palavras da montanha
e nos nomes dos rios e maré alta.
O longínquo suspende-se num semblante
que poderia ser divino e é animal.
A sonolência é um regresso às árvores
que se inclinam na distração porosa
e tornam a habitar o centro da atenção.
Imóveis na deriva somos a sombra viva
da transparência. Lúcidas as imagens
recortam o silêncio em humildes minúcias.
Na serena encantação as paredes resplandecem
e na realeza do instante o espaço doura-se.

Uma voz na pedra

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

3.8.08

O que é um encontro

O que é um encontro
breve e interminável sem um adeus final
um encontro é uma viagem fora do mundo
no mundo que nunca é verdadeiramente real
na fantasia ansiosa das palavras vibrantes
nunca é o que é
entre
o que é e não é
imaginária e vocálica
fora da sintaxe convencional
no interior de uma galáxia do vento
no espaço branco de uma alegria sem termo
no ar das palavras na respiração de uma laranja

(...)

(...) Alguém escuta
Um grão de silêncio. (...)

A morte não é um teclado de sombras

A morte não é um teclado de sombras
que pudéssemos tocar para um adeus definitivo
Embora pressentida em cada passo não se anuncia
e confunde-se com o tumulto alheio do universo
Sentimos o seu bafo gélido no meio da noite
ou na própria luz que deslumbra e não revela
o porquê do seu repousado fulgor

A outra margem de nós é-nos interdita
e o mistério nem será um mistério mas o inviolável absoluto
que não tem equivalência na palavra nem nos gestos
Somos surdos e cegos que queremos ver e nunca vemos
nem sequer a sombra dessa melancólica rosa
que poderia ser o centro da nossa íntima paz
Será que a morte nos segura na nossa frágil existência
e contra ela vivemos embora dela morrendo?
Alguma coisa falta em nossas vidas e é uma falta absoluta
mas é sobre ela que construímos uma frágil coluna
e no alto acendemos uma lâmpada vacilante
para que um horizonte se projecte na escuridão da nossa vida



La mort n’est pas un clavier d’ombres
sur lequel on pourrait jouer un chant d’adieu
Même attendue à chaque instant elle vient nous surprendre
elle se fond dans le tumulte indifférent de l’univers
On sentira son haleine glacée en pleine nuit
ou à la lumière eblouissante du jour qui garde
le secret de son éclat tranquille

L’autre rive de nous-mêmes nous est interdite
et le mystère est plus qu’un mystère c’est l’inconnaissable absolu
qui ne peut se dire ni par les mots ni par les gestes
Nous sommes des aveugles qui veulent voir et ne voient
même pas l’ombre de cette rose mélancolique
qui pourrait être le centre de notre paix profonde
Est-ce donc que la mort dans notre périssable existence nous rassure
vivons-nous donc contre elle nous qui mourons par elle?
Ce qui manque à notre vie est un manque absolu
mais c’est sur ce manque que nous construisons une fragile colonne
et nous allumons au sommet un feu tremblant
dans l’espoir de découvrir un horizon dans la nuit de la vie


Tradução: Robert Bréchon
Revisão: Agripina Ramos Rosa

fotografia e selecção de poemas de João Silva